Uma vez me disseram que há coisas pelas quais passamos que fazem com que nos tornemos mais fortes e mudemos.
E também me disseram que eu nunca mais dormiria.
Os dois são verdade.
Falando em verdade, também é verdade que eu tive de deixar algumas coisas de lado como meu pavor de ver/tirar sangue. A partir do momento em que soube que não menstruaria pelos próximos meses precisei encarar vários tubetinhos de sangue serem preenchidos no laboratório. E deixei de lado meu apetite infantil: adoro nuggets, ovo frito, arroz empapado, filé de frango à milanesa e todo e qualquer alimento que não tenha muitas fibras e minerais e vitaminas. Legumes e verduras se tornaram meus amigos de (quase) todos os dias.
E tive que começar a enxergar as coisas diferentemente do que costumava. Acho que foi o mais estranho.
Não tem como não olhar para todos que vieram antes de você, e depois também, e não pensar que alguém se cuidou para cuidar de cada um. E todos os cuidados exigidos e desempenhados pelos pais para que até seu maior desafeto vingasse e se tornasse seu desafeto. E as expectativas. E como os outros sorriem de um modo incomum quando sabem. E a solidariedade e a compreensão de quem já passou por tudo isso para com você. E até mesmo quem não sabe como é pode sorrir e dizer que logo as coisas entram nos eixos.
E as suas próprias expectativas.
Eu só espero, do fundo do meu coração, dormir umas seis horas seguidas de novo. E conseguir daqui a um tempo escovar os dentes com a mesma frequência de antes. Tenho certeza de que vai acontecer. E outra coisa que já está acontecendo é eu tomar as decisões de acordo com meu bom senso e instinto. Porque, olha, tem gente que acha que tá frio e tem gente que acha que tá calor, que tá dormindo muito, que tem que acordar, que a estante não está organizada etc etc etc. E fica a lição de que se formos nos deixar levar pelo que os outros falam, não somos nós mesmos. E pode ser que deixamos de fazer o que é certo. Porque sabemos o que é o certo.



