Pages

sábado, 8 de março de 2014

Cara organização,

Eu e você nos esbarramos algumas vezes nos últimos 25 anos e seis meses, mas devo dizer que sempre tive certo receio de me aproximar de sua pessoa. Você me intimida de uma forma aterradora. Muito mais do que tenho medo de escorpião. E sei que se não manter você por perto posso acabar cruzando com um. É que, nossa... É muito difícil falar sobre isso. Por isso resolvi escrever esta carta.
Já fui ao médico, tomei passe, li com bastante cuidado quase todas as descrições sobre meu signo, que é virgem com ascendente em capricórnio (acho que é assim que se fala), e vi que não honro os nascidos na mesma época que eu. Desde 1988 sei como é paralisante dobrar minhas roupas e colocá-las em seu devido lugar, guardar meus sapatos. Meus brinquedos, inclusive meu amado Fofão, viviam espalhados pelos cômodos. Hoje não tenho mais brinquedos, só que os sapatos continuam jogados pelos cantos, e quase não durmo em minha cama porque sempre há muita coisa embolada em cima dela (acabo dormindo no sofá ou na cama da minha mãe mesmo). O banheiro vive repleto de cremes e shampoos. Tenho muitos. Sou obcecada por shampoos e batons, e você me faz falta nessa hora. Até perco o medo de recorrer a seus métodos reconhecidamente eficientes no quesito economia de tempo. Sabe, não é que eu goste de viver no limite da emoção e sempre atrasada, mas passar uma tarde toda surfando numa táboa de passar roupa não é meu ideal de diversão e lazer. Muito menos passar o dia fazendo uma faxina. Gosto mesmo é de sair para comprar umas roupas, tomar um café e assistir Game of Thrones. Não sou fútil, sei disso, sei quem sou e onde cheguei e você também sabe. Mas chegou o momento em que preciso de sua ajuda. Ultrapassei limites que nunca sonhei ultrapassar... Muralhas de roupas e toalhas de banho preenchem meu espaço de dois metros quadrados por dois, minha escrivaninha sumiu, meus brincos estão temporariamente hospedados na pia do banheiro e, realmente, de todo coração, não sei por onde começar.
Gostaria de marcar um encontro com você. Podia ser hoje, no fim da tarde. Gosto do entardecer, do pôr do sol.
A situação está insustentável. 
Não posso continuar vivendo assim. Fui rejeitada e massacrada pelo meu ex porque você nunca esteve a meu lado. Perdi um emprego porque nunca chegava no horário (meu secador de cabelo sempre some) e postaram uma foto do meu quarto no Instagram. Humilhação define. 
Vamos tomar um café. 

sexta-feira, 7 de março de 2014

Sempre achei cartas, independentemente de serem de amor ou não, extremamente cafonas. Quando nasci ainda não havia e-mail (eu até usei máquina de escrever!), mas nunca fui fã de cartas. 
Na adolescência, havia bilhetinhos que eu trocava cazamiga e tal, e eu tenho vários guardados numa caixa em cima do armário, mas sem cartas.
Tive um namoradinho que, uma vez, quando brigamos, me mandou um vaso de flores e uma carta. Eu tinha uns 15 anos, acho. Joguei o vaso na sarjeta e piquei a carta. Cafona, caligrafia péssima, conteúdo pior ainda, e vocabulário paupérrimo. Relembrando isso, hoje, percebo que havia algum amor ali. Só que não vi. Nunca vejo nada na hora.
Até que chegou o dia em que eu escrevi uma carta, que nunca enviei, claro. E até me lembro com detalhes de que, no papel, havia umas marcas que não sei bem definir o que eram. Talvez fosse chuva, o dia e eu estávamos nublados, e o mormaço me fez suar bastante. Talvez foi na hora em que bebi água, não sei bem. Mas havia as marcas. E devo dizer que, no fim das contas, elas nunca sumiram. Eu rasguei o papel e joguei na privada. 
Foi a partir daí que aprendi a ser, digamos, prática. E posso usar tênis no trabalho sem problemas. Que meu cabelo fica horroroso quando chove, e daí se alguém vai achar alguma coisa? Tem gente que nem cabelo tem, oras. Que meus anos usando aparelho de dentes foram gloriosos! Ninguém escova os dentes com mais metodologia que eu. Até aprendi a perceber quando um cara que está me paquerando tem tártaro! (Isso é mérito de uma amiga minha loira e linda que, um dia, na balada, quando o cara da banda veio conversar comigo, ela me falou que ele tinha tártaro. Eu, no alto de meus bons drinques, nunca saberia perceber isso com a luz meio fraca, e foi aí que ela me contou que é por isso que vale a pena sair com um dentista ao menos uma vez na vida.)
E acho que usei muitas exclamações nestes parágrafos, o que não é muito recomendável na minha concepção de vida. E acho que também que isso aqui pode ser considerada uma carta. Amanhã eu resolvo.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Acho que é parte inerente do ser humano a arte de ser. Tá, ok, eu me superei nessa.
Não era isso o que eu ia dizer.
Era que tenho vergonha de dizer que inerente ao ser humano (leia-se: eu) é a ARTE DE PROCRASTINAR.




Meu livro de cabeceira devia ser este, em vez de O poder do subconsciente:


Não sei bem quando começou. Sei que foi em tenra idade. As coisas eram simples. Eu existia da forma mais pura e despretensiosa. Não havia ansiedade, stress, conta corrente negativa, cartão de crédito com fatura. Diante de qualquer dificuldade financeira, eu dizia a meus pais: "Dá cheque. Cheque paga".
Meu pai me ignorava quando eu falava isso.
Minha mãe limpava a casa, esfregava o carpete na unha e, então, enquanto eu assistia a Sessão da tarde, deixava o copo de leite com Nescau cair no chão e dizia: "Calma, mamãe. Depois limpamos. Vem cá ver TV comigo".
No jardim da infância, no ensino fundamental, principalmente. As aulas de matemática e suas lições sempre ficavam para depois. Nunca vi utilidade, a não ser no que diz respeito às fatias de pizza que me eram de direito. Não tenho dificuldades com números, só procrastino minha grande vontade de atacar as frações, funções e números reais com todo meu amor e dedicação.
No ensino médio... bem, o ensino médio foi, como posso dizer, uma época estranha. Não era tão péssimo quanto eu achava. E eu já procrastinava. Tudo. Minha existência era procrastinada, meu namoro era procrastinado, mas nunca deixei de escovar os dentes logo após a refeição. Não vou falar sobre a faculdade.
Não deixe para fazer depois o que você pode fazer agora. Acho que tem até um livro com esse nome, depois eu faço uma busca para ter certeza, agora estou escrevendo. Tenho também de fazer umas listas de tarefas e, depois, limpar a casa.
Preciso arrumar meu quarto, mas, antes, quero dar uma olhada na Etna para ver as novidades no departamento de organização. Meu armário também precisa ser organizado, sabe? Só que antes tenho de passar a roupa que está empilhada há três semanas e 5 dias.
Engraçado que eu nunca procrastino dar uma olhada no que a Olivia Palermo e a Alexa Chung estão usando. Também não enrolo pra tomar banho ou ler a Vogue. Muito menos para ver tutoriais de maquiagem no YouTube.Ah, e ler o Morri de sunga branca é sempre vapt-vupt.
No fim das contas, é mais fácil deixar tudo de lado e fingir que tudo vai bem, obrigada. E que você não precisa se preocupar agora com o agora, e dizer o que precisa ser dito. Agir de acordo com o que deve ser feito.
Não sei se este texto tem algum fundamento que possa ser considerado plausível, mas foi difícil conseguir não deixar para escrevê-lo depois.

terça-feira, 4 de março de 2014

Eu sempre quis escrever sobre coisas legais. Talvez até tenha feito a faculdade errada. Fui fazer Letras, mas queria escrever como jornalista. Mas eu escrevo, e queria escrever mais e melhor, como se minha vida dependesse disso.
E nem estou falando de poesia concreta, ou romances de suspense. Sei lá, é bom escrever.
Então, hoje, vou escrever sobre arrependimento
Eu sinto saudade. E me arrependo de algumas escolhas. De outras, não.

Me arrependo de alguns poucos amigos com quem perdi contato;
Me arrependo de alguns muitos livros que li e eram uma porcaria;
Me arrependo de não ter lido O senhor dos anéis;
Me arrependo de não saber todos os spoilers de Game of Thrones;
Me arrependo de não ter tido mais autoconsciência e ter me comportado como uma total sem noção com algumas pessoas;
Me arrependo de não ter usado meu aparelho de dentes direito, assim teria economizado tempo e dinheiro;
Me arrependo de não ter ido a mais shows de rock;
Me arrependo de ter enchido muito a cara;
Me arrependo de não ter lido Tolstói;
Me arrependo de ter demorado pra crescer de verdade;
Me arrependo de não ter aberto uma poupança quando comecei a trabalhar;
Me arrependo mais ou menos de sempre comprar muita maquiagem;
Ah, tenho outros arrependimentos, mas eles não me veem à cabeça no momento.

Não me arrependo de ter pedido desculpas; e me arrependo de não ter pedido quando devia.


Bom carnaval, pessoal.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Conforme o tempo passa,
encontro o descaso por mim
por nós
por tudo
e pelo pouco que resta.
Nada que não fui
Tampouco o que fui

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Me dê um bom dia, meu bem
Vamos fingir que somos só nós
Nessa terra de ninguém
Em que querer nem sempre é querer
E ser
Cada vez menos
É ser.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Odeio quando o esmalte começa a descascar. Faço de tudo para esconder as mãos. Parece que todos vão mirar minhas mãos e olhar para minhas unhas sofridas.
E penso que é mais ou menos assim o dia seguinte.
A sensação de querer negar, esconder seja lá o que for que fizemos. Podem ser pensamentos, devaneios ou atitudes.
Não sou ninguém para julgar valores.E também não quero fazer isso, quando já é difícil por mim mesma aceitar certos julgamentos que faço na calada da noite, quando estou agarrando meu travesseiro e pedindo a Deus que faça com que tudo dê certo.
E, por vezes, eu paro de escrever porque terminar é sempre chato. E hoje é dia seguinte. E amanhã, também.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Sempre que vou ao banheiro, mesmo que seja só para dar uma cochiladinha, me certifico de que a porta esteja fechada. TRANCADA. E abomino quando alguém tenta abrir a porta. E A PORTA ESTÁ FECHADA.Por gentileza, bata na porcaria da porta. Não me assuste.Não me deixe com batedeira.
E, diga-se de passagem, isso é o mínimo da educação.

Telefone: quando toca o telefone após às 22 horas, sim, eu me desespero. Sinto a adrenalina correndo em minhas veias e o coração bater acelerado. E sempre penso que alguém morreu, ou sofreu um acidente. Quando toca o celular com o maldito toque de ficção científica que insisto em manter, já acho que uma catástrofe está a caminho.

Carro: não atravesse meu caminho quando estou saindo de uma vaga. Pior ainda se o carro tiver direção hidráulica. E eu estiver dando ré. Que inferno este mundo!

Água sanitária: nada me apavora MAIS do que o manuseio deste produto. Ele pode manchar sua roupa, deixar seu pé horroroso e ainda te fazer escorregar quando você está lavando o banheiro. E você pode bater a cabeça no vaso ou ficar banguelo. Morrer, até.

Pratos: em restaurantes, não há como não pensar em quantas mãos aquele prato já passou, e em quem o lavou. E os talheres me deixam desesperada. Eu suo e sofro, respiro profundamente e procuro não pensar em quem lavou o alface.

Cabeleireiros e tesouras: escrever cabeleireiro é algo que exige muita atenção de mim. Palavra encardida de duê. Corto meu cabelo com uma excelente profissional, porém, quando ela vem com seu estilo Edward Mãos de Tesoura, sinto medo de perder uma orelha.

Pessoas: elas existem.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Faz um tempo, escrevi aqui no blog sobre o sonho que tinha de ter uma penteadeira.
Bem, a penteadeira surgiu. E surgiram também outros questionamentos como, por exemplo, onde colocar a bendita penteadeira.
Tenho admiração por móveis antigos e a penteadeira + banco em questão foram de minha bisavó Maria, uma senhora que além de admirável, lavava roupa como ninguém e foi casada com uma pessoa que admiro demais, o vô Zé. E deles veio minha avó Helena que, além de fazer o melhor ovo frito do mundo, me abraça e sempre diz que me ama. E isso me faz sorrir.
Bom, além de ter valor sentimental, há também o fato de ser um móvel forte e que foi restaurado por um marceneiro de primeira. 
Mas no meu quarto não tem espaço.
Mal cabe minha escrivaninha, que comprei na liquidação da Tok&$tok em cinco vezes sem juros no cartão. Mal cabe eu mesma, sabe? Não são nem dois por dois e meus armários estão sempre bagunçados, o que, obviamente, faz com que o chão fique repleto de objetos e eu ouça meu irmão falar na minha cara que meu namorado conhecerá minha verdadeira essência ao adentrar meu quarto num dia de fúria baguncística. E minha mãe propõe desafios existenciais quando fala a respeito de como minha roupa pendurada no varal está perdendo a cor por causa de dias de exposição ao sol.
E mal cabe eu mesma em mim, que posso ser meio confusa, debochada, mas que vou dar um jeito. Porque pra tudo tem jeito.

(ou não...)

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Querida rotina,

Venho por meio deste declarar meus sentimentos mais sinceros e profundos em relação a você.
Eu te odeio. Insanamente, honestamente. De todo coração.
Detesto ter horário para acordar, ter de fazer o desjejum conforme as normas sociais vigentes no tocante à alimentação pela manhã, ter de seguir um código de vestimenta e sair de casa no mesmo horário todo santo dia.
Abomino ter um horário fixo a cumprir, seja no trabalho, seja na escola. Abomino todas as obrigações advindas do fato de que você existe. Assim como cartórios. 
Você me faz ter horários. Para almoçar, jantar, dormir, tomar banho.
Você me faz prisioneira do sistema. Do dinheiro, do sono e do fato de eu existir.
Você me faz viciada em você.
E, espere. 
Não posso te odiar totalmente.
Pois sem você eu não teria conseguido o pouco que consegui na vida.
Eu não teria o prazer doentio de ouvir o despertador tocar no domingo pela manhã e poder desligá-lo e me deitar para dormir novamente. Ou, se o sono realmente me abandonar, eu posso me levantar e tomar café fresco e morgar e bocejar pensando que no dia seguinte volta tudo ao normal.
Então, rotina, talvez precisemos discutir mais a nossa relação. 
Quem sabe assim ou te odeio menos.
Ou gosto mais de você. Não sei.